Zeca Baleiro diz que a 'música brasileira está fofa'
O artista diz que também tem seu momento de fofura. Zeca faz show em S. Luís, neste sábado, dia 6
O cantor e compositor Zeca Baleiro apresenta a turnê 'Calma Aí,
Coração", neste sábado (6), no Centro de Convenções Pedro Neiva de
Santana, no Calhau. Na ocasião, o artista estará apresentando ao público
canções do mais novo CD, 'O Disco do Ano', o 9º disco de músicas
inéditas de sua carreira pela gravadora Som Livre. Na quarta-feira, (3),
Zeca Baleiro conversou informalmente com a imprensa, no Sebo Poeme-se
(Praia Grande). Também participou de noite de autógrafos, com direito a
clipes de suas músicas e a participação dos fãs que fizeram fila na
Praia Grande. Sempre acessível, Baleiro respondeu a todas as perguntas
feitas por jornalistas, radialistas e blogueiros, com irreverência, às
vezes em tom de ironia e sempre com a língua afiada que Deus lhe deu.
Ele falou sobre diversos assuntos, mas o foco principal foi o novo
disco.
Zeca
Baleiro faz show da turnê 'Calma Aí, Coração', neste sábado, (6), onde
apresenta canções do novo CD 'O Disco do Ano'. Foto: David Fortes
/Imirante.com
De Volta ao Começo
Voltar
a São Luís e encontrar os amigos é sempre um prazer. Aqui tudo começou.
Eu sou anterior a Praia Grande como atração turística e já vivia
artísticamente antes do projeto Reviver. Aqui eu tomei muitas pingas e
toquei em bares [lembrou o Risco de Vida]. O Riba, do Poeme-se, é um
contemporâneo meu em um tempo de muita efervescência cultural, nos
meados dos anos 80, quando se tinha eventos no Circo Cultural, instalado
na avenida Beira-Mar, próximo a Rffsa. Foi um período efervescente,
cristalino, onde muitos talentos desabrocharam. A música passou a ser
levada a sério na minha vida a partir desse momento. Riba fazia parte do
grupo de poetas da Academia dos Párias, um grupo de poetas que mexeu
com a cena artística de São Luís. Eu era muito próximo deles. E a volta
às origens é uma forma de homenagear a resistência do Sebo Poeme-se, há
mais de 20 anos funcionando numa cidade sem livrarias. É lamentável para
uma terra de poetas e que já foi chamada de Atenas Brasileiras. Enfim,
não é um problema da minha alçada.
O Disco do Ano
O
público pode acompanhar de perto o novo álbum e a resposta me
surpreendeu pelo volume de gente interagindo. Nós começamos por meio do
hotsite em janeiro mostrar os bastidores da produção do CD, com pequenos
vídeos e mensagens minhas, postadas diariamente até a data de
lançamento. Não era para ser um 'Big Brother', um 'Reality Show', mas
pensei da necessidade de ter a cooperação do público não para tentar
entender a concepção e complexidade do disco, mas para se envolver com o
lúdico que existe por trás disso. A gente teve a ideia de fazer uma
enquete sobre a capa do novo disco. Criamos três capas, três ensaios
fotográficos. Na primeira capa, o público elegeu a capa oficial do
disco. O segundo ensaio fotográfico escolhido pelos internautas ficou
para a tiragem limitada do 'Disco do Ano' em vinil, um sonho de criança,
onde presentearei Kid Vinil [pra quem eu perguntei em uma música quando
ele iria gravar CD. Ele me respondeu dizendo que já tinha gravado. Ele
me perguntou quando eu iria gravar vinil. Eu gravei (rsrsrs)]. Pois bem,
e no que diz respeito ao terceiro ensaio foi o que mais gostei. Mas a
gente perdeu e respeitou a decisão democrática. Foi um processo
interessante e a gente vê o alcance que tem isso. A internet é um
'baita' veículo e que deve ser bem utilizado, coisas que nem sempre
acontece. Pra mim, essa interação foi útil e divertida.
Brasília, porquê ?
Desde
o primeiro disco a gente tem buscado não fazer o mesmo caminho de
sempre. Estrear no Rio ou São Paulo e depois fazer o caminho afora. A
partir do Líricas, o meu terceiro disco, começamos a fazer isso por Belo
Horizonte. A estreia do disco com Fagner foi em Porto Alegre. Baladas
no Asfalto foi em São Luís. O Coração do Homem Bomba foi em Manaus e
depois percorreu as cidades de Belém, Macapá, no Norte. Nunca havíamos
feito no Centro Oeste, especialmente, Goiânia e Brasília, duas cidades
que têm acolhido bem o meu trabalho. Veio a calhar um produtor nos
procurando, querendo fazer a estreia do show em Brasília, no palco
enorme do Villa-Lobos, embora abandonado, é um palco histórico e não
recusamos o convite. Foi um misto de desejo e acaso para realização do
show. Embora sendo maranhense, o importante é descentralizar, pois traz
satisfação pessoal. E o interessante é curtir outra temperatura, fugir
do circuito Rio-São Paulo, que tem um público formador de opinião e já
conhecido, em que a reação em certo sentido é previsível.
Heterogêneo
Sei
que onde tem gente tem encrenca. Fiz a escolha de trabalhar com vários
produtores para fugir um pouco desse trabalho de produção. Já fiz meus
próprios trabalhos e alheios. Essa responsabilidade passei para outros
produtores. É legal ter outra pessoa de fora para que se tenha um
embate. E dizer isso não tá legal, poderia ficar melhor. Sozinho você
tem que decidir tudo. Eu acabei virando uma espécie de gerente de
produção descentralizador dessa loucura criativa toda. Mas, coisas
incriveis aconteceram até porque trabalhei com gente que nunca tinha
trabalhado. Uma delas foi o Luís Brasil, um cara que adoro o que faz. Já
trabalhou com Cassia Eller, Jussara Silveira, além do Beto Vilares, que
tem produzido muita coisa interessante. Já produziu com Céu, Siba e faz
trilha sonora para cinema. Algumas pessoas que vestiram algumas dessas
canções me surpreenderam bastante. E como sempre fui promíscuo desde o
começo da carreira. Já trabalhei com muita gente. Nesse disco tem as
participações de Wado, da cantora japonesa Kana, Frejat, Margareth
Menezes, da minha irmã Lúcia Santos e de Chorão, de quem sou fã, e
Andréia Dias, uma figura da geração posterior a minha e que acho muito
boa artista. No meio dessa diversidade já fiz discos enxuto. Mas eu
gosto dessa confusão, pois sempre sai uma coisa interessante. As pessoas
ficam muito obcecadas por unidade. A pergunta que mais ouço é esse
disco não tende a ficar sem unidade ? Eu respondo: nem Deus é uno. A
bagunça, a confusão, a heteregoneidade me interessa muito mais como
artista.
Show
Quando
eu lanço um disco e faço o show, gosto de centrar naquele disco, senão
corre o risco de ficar o cantor das mesmas 15 e 20 músicas de sempre.
Levarei para o palco aquelas músicas que todos cantam juntos.
Mostraremos as canções mais antigas de maneira reciclada, rearranjadas.
Mas o show é bastante centrado no repertório do novo disco. Foram
preparadas algumas projeções para o show. Tem releituras de Martinho da
Vila, Marina Lima, e algumas supresinhas...
E a MPM ?
A
projeção dela lá fora ainda é muito desconhecida. Não sei explicar o
que acontece. A gente é rico em talentos, mas a produção cultural local
não consegue transpor barreira. Nem se pode justificar mais que é pela
distância geográfica, argumento esse que era justo quando se tinha
dificuldades para se gravar disco anos 70. Os artistas tinham que ir
para Belém, Recife, paRA gravar. Na época em São Luís existia a Sonato,
um ponto de resistência, mas que era insuficiente. Recife virou matriz
cultural do Nordeste, mas em termos de produção cultural, acho que a
gente não fica a dever. Tem alguma coisa que impede que essa música se
expanda. Aí, é assunto para antropólogo, sociólogo ou, quem sabe, um
cientista político e não para um belo compositor popular. Como diria Tom
Jobim: 'o caminho, a saída, é o aeroporto do Tirirical (rsrsrs).
Ano do Brasil em Portugal
Foi
no domingo 23, [parece mais a música de Jorge Benjor, rsrsrs] que me
apresentei no show de abertura do Ano do Brasil em Portugal, em Lisboa,
evento que reúne uma série de atividades culturais dos dois países. E
nesse dia me apresentei e dividi o palco com Martinho da Vila, Zé
Ricardo, Pedro Luís e os artistas portugueses Paulo Gonzo, Carminho e o
rapper Boss AC. Foi um show coletivo, mas deu entrada para que volte
para lançar o 'Disco do Ano', em Portugal. Lancei os meus discos lá.
Embora com a crise econòmica é um mercado muito interessante pra mim. Eu
gosto muito de lá.
Pra Que Pensar ?
A
Música Popular Brasileira está fofa. A música é uma crônica de
costumes, narra a história de um tempo, de uma época. Nos anos 60, 70, a
música era rica porque a época exigia isso. Os anos 80 foi marcado por
um outro momento. Hoje predomina uma alienação que vai além do político.
Temos menos teor ideológico. Eu não sei explicar direito. Mas acredito
que tem haver com o mundo tecnológico, com esse mundo digital, das redes
sociais. Isso tem criado uma neblina no pensamento. Eu tenho dois
filhos adolescentes que estão inseridos nesse contexto. Eu sei bem que é
isso. A gente próprio não está imune desse contágio. A internet é uma
coisa viciante, 'quanto cocaína e tão perigosa quanto' {brincou]. A
gente tem que ter muito cuidado com essas coisas. Como pai estou sempre
atento. Essa geração já nasceu dentro desse mundo. É uma geração muito
pouco instigada a pensar, a questionar o mundo. Talvez, por isso, haja
essa falta de estofo crítico nas canções feitas hoje. A gente vive um
momento de fofa na música. Eu também tenho meu momento de fofura. Acho
legal canções delicadas. Gosto do lado feminino no sentido grego da
palavra. Mas acho que é preciso pintar a porta, de uma certa rudeza.
Acho que o meu trabalho é uma transição entre tudo isso. Enfim, a música
que predomina hoje é bonitinha, bacaninha, porém inócua. Ah, não sei se
a música, hoje, tem o poder de outrora de mudar o quadro social e
político. A internet tem mais poder. É terrível, [eu] um compositor
popular, um cara que vive de música ter que falar isso. A internet tem
mais poder de transformar, efetivamente, uma situação do que a música. A
música virou uma trilha, um pano de fundo, um BG (background).
Infelizmente !
A Música é uma brincadeira
O
Funk da Lama é uma brincadeira. A princípio os músicos não queriam
dançar a coreografia. Aumentei o cachê e disse a eles que iriam ganhar
muitas meninas [brincou Zeca]. Eu criei o funk e, especialmente,
inventei a coreografia. Perguntaram porque não contratava bailarinos
para dançar o funk. Eu preferi apostar nos músicos, pois a ideia que
ficasse tosco e ridículo para combinar com a ironia da música. Os
músicos gostam muito. É o melhor momento do show. Tudo não passa de uma
brincadeira. A música é uma brincadeira. A matéria musical é uma
celebração. Ela ganhoi outros contornos com o tempo se tornando uma
coisa séria demais, talvez porque o momento político, social do mundo,
exigia para que ela se tornasse séria. A música é um vínculo de
entretenimento. Contesto quem fala que a música tem que ter sempre um
papel social. Eu acho que não tem que ter (a priori), senão James Brown,
Michael Jackson e Tim Maia seriam lixos ? A música é dança, obviamente,
ela carrega em si um potencial incrível de comunicação, de
interferências na vida das pessoas. É uma possibilidade imensa. Isso
sim. Se a música tem essas possibilidades, vamos usá-las todas...
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